sábado, 31 de março de 2007
Bleh.
Nada de posts ainda, eu sei.
Preciso pensar. E mais ainda, preciso escrever.
I will.
domingo, 25 de março de 2007

"Vivi portanto só, sem amigo com quem pudesse realmente conversar, até o dia, cerca de seis anos atrás, em que tive uma pane no deserto do Saara. Alguma coisa se quebrara no motor. E como não tinha comigo mecânico ou passageiro, preparei-me para empreender sozinho o difícil conserto. Era, para mim, questão de vida ou de morte. Só dava para oito dias a água que eu tinha.
Na primeira noite adormeci pois sobre a areia, a milhas e milhas de qualquer terra habitada. Estava mais isolado que o náufrago numa tábua, perdido no meio do mar. Imaginem então a minha surpresa, quando, ao despertar do dia, uma vozinha estranha me acordou. Dizia: | |||||
| - Por favor... desenha-me um carneiro! | |||||
| - Hem! | |||||
| - Desenha-me um carneiro.. | |||||
| Pus-me de pé, como atingido por um raio. Esfreguei os olhos. Olhei bem. E vi um pedacinho de gente inteiramente extraordinário, que me considerava com gravidade. Eis o melhor retrato que, mais tarde, consegui fazer dele. | |||||
| Meu desenho é, seguramente, muito menos sedutor que o modelo. Não tenho culpa. Fora desencorajado, aos seis anos, da minha carreira de pintor, e só aprendera a desenhar jibóias abertas e fechadas. | |||||
| Olhava pois essa aparição com olhos redondos de espanto. Não esqueçam que eu me achava a mil milhas de qualquer terra habitada. Ora, o meu homenzinho não me parecia nem perdido, nem morto de fadiga, nem morto de fome, de sede ou de medo. Não tinha absolutamente a aparência de uma criança perdida no deserto, a mil milhas da região habitada. Quando pude enfim articular palavra, perguntei-lhe: | |||||
| - Mas ... que fazes aqui? | |||||
| E ele repetiu-me então, brandamente, como uma coisa muito séria: | |||||
| - Por favor ... desenha-me um carneiro ... | |||||
| Quando o mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobedecer. Por mais absurdo que aquilo me parecesse a mil milhas de todos os lugares habitados e em perigo de morte, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta. Mas lembrei-me, então, que eu havia estudado de preferência geografia, história, cálculo e gramática, e disse ao garoto (com um pouco de mau humor) que eu não sabia desenhar. Respondeu-me: | |||||
| - Não tem importância. Desenha-me um carneiro. | |||||
| Como jamais houvesse desenhado um carneiro, refiz para ele um dos dois únicos desenhos que sabia. O da jibóia fechada. E fiquei estupefato de ouvir o garoto replicar: | |||||
| - Não! Não! Eu não quero um elefante numa jibóia. A jibóia é perigosa e o elefante toma muito espaço. Tudo é pequeno onde eu moro. Preciso é dum carneiro. Desenha-me um carneiro. | |||||
| Então eu desenhei. | |||||
| Olhou atentamente, e disse: | |||||
| - Não! Esse já está muito doente. Desenha outro. | |||||
| Desenhei de novo. | |||||
| Meu amigo sorriu com indulgência: | |||||
| - Bem vês que isto não é um carneiro. É um bode... Olha os chifres... | |||||
| Fiz mais uma vez o desenho. | |||||
| Mas ele foi recusado como os precedentes: | |||||
| - Este aí é muito velho. Quero um carneiro que viva muito. | |||||
| Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado. | |||||
| E arrisquei: | |||||
| - Esta é a caixa. O carneiro está dentro. | |||||
| Mas fiquei surpreso de ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz: | |||||
| - Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro? | |||||
| - Por quê? | |||||
| - Porque é muito pequeno onde eu moro... | |||||
| - Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada! | |||||
| Inclinou a cabeça sobre o desenho: | |||||
| - Não é tão pequeno assim... Olha! Adormeceu... | |||||
| E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno príncipe." Para aqueles que já me conhecem, o fato de o Petit fazer parte da minha vida - acadêmica, inclusive - não é novidade. Por mais piegas que possa ser, não tem jeito, eu o adoro. Leio, releio. Sempre descubro coisas novas e me emociono. Sou fã declarada do Pequeno Príncipe.
*Vejam também: "Das Pequenas Grandes Coisas". | |||||